Bernoulli

Querida Horta,

O primeiro post do ano de 2017 chegou, e não vem com mais sabedoria e conhecimento do que a Batata te habituou até agora. Garanto.

A sua vinda deve-se, aliás, a um acontecimento que teve o poder de me deixar a indagar sobre o sentido da vida, o ovo e a galinha, o karma e a sociedade, o porquê de rosa ficar mal com vermelho e mesmo assim alguém usar… Enfim, questões importantes da vida. Obviamente.

Ora, tudo começou quando o acordar de hoje de manhã se deu de sorriso nos lábios, num ronronar gostoso de prazer. Na verdade, nem queria abrir os olhos de tão bom que estava a ser aquele sonho que me envolvia e puxava de novo para a almofada.

Estão a pensar o mesmo que eu, não é?

Exacto. Estava a sonhar com a Equação de Bernoulli, enquanto calculava a tão sexy perda de carga de uma tubagem. Na minha cabeça, tudo era claro como água (antes fosse assim quando realmente tinha de resolver exames com esta equação): os ΔP que se transformavam em alturas e velocidades ao quadrado, em viscosidades e densidades, os lados da equação que se igualavam e, brilhante, o ganho da bomba. Era na bomba que aquela equação se centrava, o busílis da questão.

É então quando acordo, elegantemente e de sorriso nos lábios, que ainda me dou ao luxo de pensar que devia ter incluído cotovelos a 90º e válvulas de expansão e de borboleta, para poder calcular os factores de atrito. (Pressinto cabeças a abanar de desaprovação.) Mas mesmo quando acordei completamente e me apercebi do quão ridículo tinha sido este sonho, a sensação que tive continuou a ser de pura felicidade.

Analisando agora o bendito produto da minha mente, só posso constatar que sofro de saudaditis agudis de Engenharia. E de tudo o que tantas dores de cabeça me deu.

Se o meu Eu de antigamente me visse neste momento, iria chorar (ou estudar com mais vontade, dependendo de quem estiver a olhar para o copo) e pensaria se tudo aquilo que tinha sonhado tornar-se se transformaria apenas num nerd que sonha com equações, e ainda fica feliz!

Na verdade, passaram 3 meses desde que acabei o curso e quase 2 desde que comecei em investigação numa área um pouco diferente. Na verdade, ontem regressei à minha Universidade e tudo estava tão igual que o cheiro dos pavilhões deve ter ficado entranhado, mesmo enquanto dormia. (Agora que penso, cruzei-me com uma professora da cadeira onde isto entrava. Hum). Na verdade, ainda estou a aprender que raio de quereres quero Eu, que vocações, sonhos e paixões se encontram aqui a fervilhar à espera que a Energia de Activação seja atingida (já que estamos numa de ser nerds, why not?).

Acredito que todos os momentos porque passamos não são nada mais que peças de um grande puzzle de polaroid. E é à medida em que vamos arriscando e fazendo novas fotografias, que a paisagem começa a fazer cada vez mais sentido.

Todas as experiências são ensinamentos, todas as pessoas que connosco se cruzam, professores. E muitas vezes ensinam-nos quem somos nós próprios – muitas vezes, acabamos forçados a ver espelhadas as nossas atitudes, a ouvir da nossa boca palavras que nunca pensámos ouvir, e a ter pensamentos que nunca imaginámos possíveis. Mas é quando provamos do Bom e do Mau que podemos escolher quem somos, é quando tocamos na fronteira dos extremos que compreendemos onde fica o nosso meio, onde nos sentimos confortáveis em ser nós próprios. E essencialmente, é fazer por seguir esse caminho sem nunca nos tornarmos naquilo que criticamos nos outros.

E sim, é a esta conclusão que chego depois de ter sonhado com a Equação de Bernoulli. Isso e a vontade doida que me deu de ir pegar num livro e fazer exercícios e resolver problemas. Provavelmente estão aqui uns quantos parafusos soltos, mas começo a chegar à conclusão de que, em vez de os tentar apertar, tenho de achocalhar mais a cabeça para afrouxar alguns que foram apertando com o tempo, e correm o risco de enferrujar. Dar liberdade à máquina para ser flexível e não levar tudo tão a sério. E essencialmente ser mais Eu. Única. E sem medos.

Batatinhas!

P.S: A linda.

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