O vinho, as uvas, e o cheiro de tudo isto

Na semana passada levei um grupo do trabalho a fazer vindimas.

O que ninguém sabia é que as vindimas têm um lugar especial no meu coração. Todos os anos, a minha família numerosa reunia-se numa aldeia para, de tesoura e balde na mão, apanharmos os cachos de uvas, enquanto conversávamos quase um ano de ausências e saudade.

Anos volvidos, tudo isso ficou lá atrás. Os elementos agregadores da família numerosa já não existem - pelo menos não na sua plenitude, - e com o seu desaparecimento, desapareceu também esta grande festa que nos reunia a todos.

E o que poucos sabiam é que fiz um doutoramento nesta área, procurando para ela contribuir com Ciência. E que este doutoramento procurou ser o mais aplicado possível, misturando a vida no laboratório e atrás do computador, com a azáfama e os cheiros da adega.

Assim, quando na semana passada cheguei com o grupo à adega de manhã cedo, e vi o chão molhado, as mangueiras espalhadas, e aquele aroma no ar, voltou tudo a morar em mim.

Não consegui evitar que se formasse um nó na minha garganta e, sem esperar, as lágrimas toldaram-me a visão. 

Conversar com o enólogo que acompanhava a nossa visita, e que apaixonadamente falava do Vinho, do seu maravilhoso processo e das muitas formas que procuravam inovar, lembrou-me tempos passados em que tudo era entusiasmante, em que havia vontade de melhorar e de transformar e em como tanto me divertia com a infinitude de possibilidades.

Ter-me afastado desta realidade, com a entrada no mundo do trabalho numa área diferente, é um espelho de como, por vezes, temos que deixar momentaneamente o que nos apaixona para cumprirmos com as obrigações e responsabilidades da vida. Ao mesmo tempo, ter estas oportunidades inesperadas faz-me ver que a Vida vai-nos guiando, se conseguirmos deixar-nos levar.

Este ano teve tanta dor, mas orgulho-me de não me ter deixado por ela consumir. E olho para o caminho que tenho à frente como um convite a regressar a mim, a fazer mais do que me faz feliz para conseguir enfrentar o que me drena, com outra disposição. 

Não sei o que o Futuro me reserva (ninguém verdadeiramente sabe), mas espero conseguir sempre olhar para a estrada com o copo meio cheio e aproveitar cada gotinha desta caminhada.

Batatinhas 

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